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  • Mari Romano

A gravura italiana no MNBA

Exposição se encerra com visita guiada especial


Por Mari Romano março 2016

Ontem encerrou-se a exposição Mestres da Arte Gráfica Italiana no Museu Nacional de Belas Artes com uma visita guiada por duas pesquisadoras do Istituto Centrale per la Grafica di Roma, Maria Bonetti e Lucia Ghedin. Após as palavras de abertura da diretora do MNBA, Monica Xexéo, e do adido cultural da Istituto Italiano di Cultura, Andrea Baldi, as palestrantes começaram a visita dando um apanhado geral aos participantes sobre a técnica e história do gravado.


A exposição é uma seleção cuidadosa de 51 obras dentre as 24.000 que compõe a coleção da Calcoteca do Instituto Central de Gráfica de Roma. A escolha priorizou abranger um vasto período cronológico, desde 1500 até os dias de hoje, podendo traçar as mudanças e evoluções na técnica da gravura. Em um certo momento da história, era uma solução à falta de meios de registro visual, até se tornar um veículo para o ingênio do artista. Se antigamente o gravador era um mero técnico, hoje é reconhecido como um real artista: em 2004 as matrizes foram estabelecidas como patrimônio cultural da Italia. Desde 1975, o Instituto para a Gráfica de Roma trabalha para conservar e restaurar esse material.

É a primeira vez que este acervo vem ao Brasil. Esta é uma exposição itinerante que esteve em Buenos Aires antes de vir ao Rio de Janeiro, uma seleção de matrizes de vários períodos que representam uma viagem cronológica por todo o período artístico desde 1500 até a contemporaneidade.


A gravura

O gravado é um processo que funciona como uma estampa. Trabalha-se em uma única matriz, que então serve como base para passar tinta a obter reproduções. Como a matriz da gravura se desgasta a cada impressão ou estampa, como se diz em italiano, as matrizes expostas já não servem mas como fonte de impressão. Por serem bens patrimoniais da Itália e devem ser preservadas. Para a feitura de novas impressões, é feita uma foto gravura que produz uma nova matriz que essa sim, pode ser usada para fazer novas impressões.


“A gravura é uma tradução de uma arte diversa” Lucia Ghedi, pesquisadora e restauradora

O gravado era feito em cobre e algumas placas são banhadas em cromo, processo chamado recobrimento galvânico cromado. A técnica foi inventada por volta de 1400 e teve uma evolução súbita tanto em técnica quando em criação artística, não só na Itália, mas como em toda Europa. É um motivo grande de orgulho para Itália. A história da gravura sempre esteve buscando novas técnicas para criar matrizes de produção em massa. Ou seja, primeiramente não era tido como um meio artístico senão um veículo prático para a reprodução de obras consagradas de outros artistas.


“Em um processo de gravado, há três artistas envolvidos: o criador de uma obra fora do gravado, o desenhador que interpreta essa obra para a plataforma matricial, e o gravador, que executa esse desenho na matriz de cobre.” explica Lucia Ghedi. A obra original poderia ser uma pintura, uma escultura, um esboço. Só tempos depois é que foi se tornando uma forma do artista dar forma à sua imaginação. As ténicas para carvar são variadas, como a ponta seca e a água-forte.

Apesar da exposição ser focada nas próprias matrizes, foram selecionadas algumas estampas para serem exibidas ao lado da matriz original, podendo ilustrar como era o resultado dessas impressões.


 

História

Através da conservação dessas matrizes tão antigas, pode-se descobrir muitas informações sobre como eram feitas, podendo traçar uma linha clara sobre a evolução da técnica e de como era o processo de carvar as imagens. Pode-se inclusive identificar quais partes foram propositais e quais foram um acidente. Fala-se de uma nova cultura da matriz onde a modernizagem da gravura permitiu novas abordagens artísticas para essa técnica que em sua época era uma solução ao que agora entendemos como a falta de um advento como fotografia, por exemplo. Assim como a fotografia parece hoje uma solução temporária para a falta do vídeo, e de repente o vídeo para os hologramas, e os hologramas para uma realidade virtual. Mas na verdade, apesar dessa perspectiva funcional e conclusiva no tempo em que vivemos, há em realidade um valor intrínseco em todas essas etapas e técnicas, que não se esgotam ou deixam de serem importantes só porque há outra forma de fazer as coisas.


Em 1738 o Papa Clemente XII comprou nove mil matrizes da estamparia romana De Rossi alla Pace destruiu as que as considerava de cunho obsceno e então instaura a Calcografia Camarária, onde começa a história da calcografia italiana. Em 1975 essa coleção se reúne à coleção do Gabinetto Nazionale delle Stampe e essa fusão permite resulta na coleção oficial de gravuras italianas. Ela permite uma rica pesquisa pela especificidade dessa coleção que testemunha todas as fases da gravura.

“[apesar de ser base para reproduções] a matriz é um produto finito em si, quase como uma escultura”, contou Lucia Ghedi. Hoje, as matrizes voltam para a Itália, onde ficarão longe dos olhos do público por um tempo “As matrizes precisam descansar, ficar longe da luz.” encerra Andrea Baldi “Elas já estão viajando há 6 meses. Hora de ir para casa.”

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